Uma vez estava assistindo uma entrevista com o ícone Dr. Sobral Pinto de idade avançada e na eloquência de sua serenidade desabafou naquele momento que a humanidade tinha perdido a ingenuidade no final da primeira grande guerra.

Fiquei pensando por algum tempo onde estaria guardado algum registro desta ingenuidade perdida e saudosa do nosso mestre, que resignado resistia as modernidades dos nossos tempos, onde, por exemplo, sempre em dado momento da entrevista se referia carinhosamente a sua companheira como minha “patroa”.

Eram tempos que se pedia as bênçãos aos nossos pais. Professores eram tratados como mestres. Advogados eram doutores. Militares com sua patente, autoridades públicas de vossa senhoria e pessoas comuns como senhores.

Nossos pais falavam uma única vez para nos chamar atenção e nossos vizinhos vigiavam nossos comportamentos sociais prontos para avisar aos nossos pais. 

Não havia abraços forçados ou beijos intimidadores nas meninas.
Um simples aperto de mão ou uma leve inclinação da cabeça já era importante para estabelecer um contato inicial, preservando uma aproximação evasiva e incomoda.

Nem sempre queremos estabelecer algum tipo de formalidade, mas a cultura social atualmente acaba impondo reações que nem sempre são espontâneas ou verdadeiras.

Na época do Dr. Sobral Pinto o cumprimento ao passar por uma pessoa conhecida era sinal de respeito e falar em tom baixo era uma forma respeitosa de educação e etiqueta.
Os filhos não se metiam nas conversas dos adultos e isto era uma regra que não se tolerava quando uma criança desrespeitava ou perguntava sobre um assunto inconveniente.

Os namoros bem sucedidos em casamento começavam primeiro com uma grande amizade, geralmente no colégio e depois de algum tempo na festa de 15 anos da moça, o amigo poderia também dançar a valsa de aniversário, dando um primeiro passo importante para o início do namoro.

E para namorar era preciso autorização e conhecimento dos pais das famílias que acompanhavam e supervisionavam bem de perto este namoro.
Nos anos 60 esta ingenuidade foi se dissipando com os movimentos políticos, sociais e se revelando nas universidades, onde a televisão estava dando os primeiros passos e a comunicação passou a ser coletiva e globalizada.

As revoluções culturais através da moda, costumes, música, política e consumo foram tomando conta das pessoas e da sociedade que tinham ainda valores conservadores considerados ingênuos e tolos para um novo modo de se relacionar que era fruto destes movimentos sociais.

Uma nova dinâmica surgia através do crédito fácil e consumo das grandes lojas que passaram a normatizar as novas ideologias e dividir a sociedade em tribos de acordo com suas escolhas.

Utopias eram as válvulas de escape para alguns jovens rebeldes nos anos 60 e 70 que buscavam suas identidades e rejeitavam aquelas ingenuidades que ainda resistiam em nossos pais e avós que tanto o Dr. Sobral Pinto lamentava termos perdido.

O “ser“, antes importante para mostrar o nosso caráter na sociedade, outrora ingênua com os amigos e familiares antes da primeira guerra, foi substituído sorrateiramente pelo “ter“, mais dinâmico, competitivo e vencedor e passou a resumir estes valores numa única receita de comportamento social. 

Hoje, somos guiados pelos modismos impostos por manipuladores das grandes corporações que buscam uma tendência de valores sociais em nome das liberdades e utopias que desconhecemos.

A geração atual segue apenas um modelo com a globalização que passou a ser importado na comunicação de massas que respondem a estes modelos de comportamentos imprevisíveis.

Ter não é mais ser o que este “status quo” determina numa nova sociedade dinâmica e conectada a grande rede.

Ser não é mais importante se o indivíduo não pode ter aquilo que representa seus valores. 

Afinal, hoje somos o que somos e os que nos representam.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *